SOCIEDADE
19 de fevereiro 2019 - às 08:48
PSICÓLOGOS EM MOMENTO ÍMPAR DE REFLEXÃO SAÚDE MENTAL É TABU NA SOCIEDADE ANGOLANA
Ginga Gladys Da Mata Diogo, 40 anos de idade, angolana, residente no município de Belas e trabalhadora, é paciente da rara patologia de transtorno bipolar. Encontramos matéria numa tertúlia sobre saúde mental, que aconteceu em Dezembro último, na União dos Escritores Angolanos, onde Psicólogos das várias áreas de actuação estiveram em reflexão
O transtorno bipolar é uma doença cerebral física, que pode ser adquirida de forma biológica, psíquica ou social, e leva à alterações no comportamento do indivíduo, fazendo com que ele oscile entre pólos distintos, que podem ser períodos de muito bom humor e períodos de irritação ou depressão. As chamadas "oscilações de humor" entre a mania e a depressão podem ser muito rápidas e ocorrer com muita ou pouca frequência.
Existem três tipos de transtorno bipolar, nomeadamente o tipo 1, tipo 2 e a Ciclotimia, sendo que todos eles afectam os níveis de humor, energia e actividade do indivíduo.Embora seja uma condição que não tem cura, é possível controlar as alterações de humor com medicamentos específicos e acompanhamento psicológico (psicoterapia).
Quando um paciente com transtorno bipolar está sem tratamento, cada fase pode durar de três a seis meses. Depois existe uma fase de normalidade que é variável e posteriormente uma fase de euforia que também pode durar de três a seis meses. Com tratamento adequado, este período pode ser abreviado.
O alcoolismo, as perdas, problemas sociais como o estresse são questões que levam qualquer indivíduo a uma saúde mental débil, propenso a desenvolver esta ou outras patologias mentais.
Voltando à Ginga, a coragem de contar o seu testemunho fez-me parar e pensar que o tabu a volta desta problemática merece um tratamento especial.Tudo começou aos 13 anos de idade, quando esta apresentava um quadro psicótico crítico: com delírios, febres muito altas, alteração no tom de voz, certa ansiedade e uma total irritação, que a deixava descontrolada. “Foi-me diagnosticada naquela altura uma malária cerebral, tendo sido medicada para isso. E por acaso os sintomas desapareceram, mas só mesmo por acaso”, contou.
O transtorno bipolar do tipo 1, com que Ginga vive até então, foi diagnosticado dez anos depois daquela consulta e medicação que fez aos 13 anos, quando em visita a Espanha, teve a segunda grave manifestação. "Momentos de delírios e de total agitação, uma irritabilidade tão grande que me tirava a concentração, insónias, momentos de alucinações, que resultou de um internamento de 8 dias. Foi aí que o médico chamou o meu pai, disse que eu tinha uma doença rara e que deveria, daí em diante, seguir uma medicação rigorosa, fazendo com que o meu pai assinasse um termo que se comprometia a custear o meu tratamento fora de Espanha". Depois disso, voltou a Luanda, onde continuou a ter a sua vida normal, seguida pela medicação diária e os outros cuidados que tem no seu dia-a-dia.
Ginga Diogo, enquanto não aceitou a sua patologia, sofreu muito com as recaídas. Depois de ter aceite, muito por pesquisas, porque na verdade não lhe tinham dito de que patologia se tratava, ela hoje vive melhor e com mais segurança.
O transtorno bipolar influenciou pela negativa os seus estudos. "Tive de desistir de estudar algumas vezes, por motivo de encaminhamento. A última vez que parei, foi quando fazia o superior e tive uma crise, em que fiquei internada durante dois meses", disse, mas a força e foco nos seus objectivos, fizeram-na vencer e hoje é licenciada em Tradução e Administração desde 2011 pela Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica de Angola.
Faz uma medicação forte diariamente, composta por anti-depressivos, neurológicos e anti-psicóticos. Cara e de difícil acesso. Quando o quadro é mais leve, faz diariamente dois fármacos, mas em momentos de crises, precisa de redobrar a medicação, sendo que chega a fazer cerca de 10 medicamentos.
Intelectualmente não ficam a dever a ninguém, chegando a ser muito melhores que muitos outros que se enaltecem com o título “Normais”. Apenas o estigma faz dessas pessoas inferiorizadas. No caso de Ginga, que é apaixonada por Arte, tem uma criatividade muito grande, que embora muitas vezes precise de um acompanhamento, é uma fazedora de verdadeiras obras.
O apoio e a estabilidade, que vai encontrando na família leva-a para um estilo de vida equilibrado, com ambiente propício e acompanhamento médico. Sente-se socialmente discriminada. "O estigma na nossa sociedade ainda é muito grande. E para problemas do fórum psicológico, então... Penso que as pessoas acham que vivemos com esse tipo de problemas por opção. E uma coisa que tem de se trabalhar muito, pondo na cabeça das pessoas que todos, independentemente da raça, género ou credo, podemos desenvolver."
Olhando para a sua realidade e para a realidade de outras pessoas que vivem na mesma condição, Ginga considera que o Estado podia fazer mais: "Das 18 províncias, apenas Luanda tem um único hospital psiquiátrico. Angola é um pais que viveu intensos anos de guerra, e que fruto dela, tem mais pessoas frustradas e depressivas. Não é possível que a saúde mental não seja prioridade!. Quem viveu esta guerra? Quem são as famílias dos antigos combatentes? Onde estão? Podíamos cuidar melhor disso. Estamos inseridos numa sociedade regida por leis, mas é triste que as leis sobre a saúde não têm sido cumpridas!. Todos os projectos sobre saúde mental estão inacabados, nada se implementa. Projectos muito bonitos com lemas, temas e tudo muito sugestivo, mas que na prática não acontece nada", desabafou.
Contou ainda que a última vez que esteve internada, em Maio de 2018, viveu na pele esse problema; "vi coisas inaceitáveis: na psiquiatria ainda batem nos pacientes. Dormimos todos no mesmo sítio. Somos pacientes com patologias diferenciadas. E o hospital não estabelece essa diferença. Dez, 20 pessoas ficam no mesmo quarto. E muitas dividem a mesma cama. Não é justo eu dividir uma cama com uma pessoa cujo distúrbio desconheça, pois, sabemos que alguns são extremamente perigosos.”
Enquanto a sociedade e o Estado não apoia e/ou por um lado estabelece tabus, psicólogos, estudantes de psicologia e simpatizantes da ciência reúnem-se em encontros para discutir sobre a problemática “Saúde Mental”.
Foram parte da primeira tertúlia, 5 psicólogos de diferentes áreas de actuação, desde Psicólogo do trabalho, Psicólogo criminal, Psicólogo clínico, Psicólogo educacional. O ponto mais alto foi a partilha de experiência entre os mesmos e também uma passagem geral pela área de cada um. Uns com mais, outros com menos experiência.
O Dr. Mário Lemos desmistificou a psicologia criminal e falou aos presentes onde e quando se emprega a mesma área, que normalmente se percebe como “ciência para malucos”.
Partindo do pressuposto de que a descontextualização da Psicologia em Angola é uma realidade frenética, Samba Jerónimo não se acanhou em explicar que “é importante conhecer-se o contexto em que se actua, para assim sabermos onde começa e onde termina a actuação como psico-terapeutas, psico-criminalistas, ou noutra área qualquer da Psicologia”, elucidou.
Os psicólogos presentes naquela conversa, inutilizaram a convencional definição de Psicologia, alegando que esta estuda mais do que o comportamento humano. Os novos psicólogos afirmam que “a psicologia é uma forma de se ser mais feliz, eficaz e efectivo em tudo o que se faz”.
Gualter César, Psicólogo do trabalho, afirma que a Psicologia está numa nova era, defendendo que na época em que estudou, parecia que a psicologia era compartimentalizada. Este, que falou também sobre o actual estado do mercado de trabalho, reconheceu que os profissionais devem ter mais cuidado na procura dos seus empregos: “há sempre vagas para profissionais qualificados e com constante evolução das suas carreiras; existem candidatos a trabalhos que não percebem o mercado. É preciso fazer-se esse exercício”, desmistificou.
Estiveram presentes nessa tertúlia, não apenas profissionais da área de Psicologia, mas de outras áreas de actuação, donde conseguimos reter Arquitectos, Ambientalistas e Escritores, que falaram sobre a Psicologia como ciência de apoio crucial às suas actividades.
DA CONVERSA SOBRE SAÚDE MENTAL,
TIRAMOS APRENDIZADO DE CADA UM AÍ PRESENTE:
“A Psicologia é a ciência que estuda o processo mental que define o
comportamento”- Gualter César
“É preciso “despatologizar” a Psicologia”- Dr. Mário Lemos
“Não existem pessoas felizes. Existem pessoas que vivem felizes.
E a Psicologia tem ajudado muito neste processo”- Catarino Luamba
“Precisamos de uma Psicologia positiva: para isso é preciso potenciar o
que está bem, agradecer o pouco, para que seja acrescentado mais”.
Elsa Mbumba